Pega na minha mão e vem pra China!




Ni hao!

Essa palavrinha é o seu ponto de partida assim que pisar na China e quer dizer ‘olá’. Como viajantes, é sempre bom aprender algumas palavras básicas em idiomas impronunciáveis para nos comunicarmos melhor. Mas no caso da China, a situação é um pouquinho diferente. É muito educado chegar saudando o outro, e ni hao é compreensível em qualquer parte do país, independente da pronúncia. O problema é que os próprios chineses não costumam ser muito educados e, em muitos momentos, não vão fazer questão de dizer nem isso a você.

Os chineses, como eu já tinha escutado pelos lados de cá do Ocidente, são bem sem educação, rabugentos e cultivam maus hábitos (por incrível que possa parecer no saudável estilo de vida no Oriente) como escarrar e cuspir o tempo todo (detalhe: em QUALQUER lugar), além do empurra-empurra já esperado em um lugar que abriga 1.5 bilhões de pessoas. Mas não desanime porque, apesar de um certo abismo cultural, é possível listar também mil e uma maravilhas por lá que são capazes de te fazer superar essa questão.

Afinal, se você está na chuva (ou no frio cabuloso que estava lá no final do ano), é pra se molhar, se acostumar e se jogar pela China. Planejando sua próxima viagem e pensando na China? Então as dicas a seguir são para você.




Shanghai sem G

Essa foi a primeira coisa que aprendi por lá: a real pronúncia do nome de uma das cidades mais incríveis e surpreendentes do mundo é sem o som do G, assim como qualquer outro termo chinês traduzido para o inglês que tiver G no meio, como o nome do bairro em que eu fiquei – Jing’an Temple (leia-se JinHan), que é também o nome de um dos templos mais antigos dessa metrópole, localizado no centro da cidade em meio a avenidas e muros cobertos por mudas de plantas (pausa aqui pra contar que ShanHai – a pronúncia correta! – tem flores e vasinhos de plantas espalhados por vários locais, o que deixa seus percursos ainda mais deliciosos).

Outra surpresa que tive por lá foi me deparar com pessoas que não falam inglês já que a cidade é uma capital mundial de negócios e também turismo. Essa é uma das grandes dificuldades dos viajantes, e se precisar de alguma informação, procure os jovens (que às vezes falam ou entendem melhor) e ande sempre com seu endereço escrito em mandarim para facilitar caso precise mostrar a alguém ou ao taxista.

Desembarcando em Jing’an Temple, a modernidade das inúmeras grifes famosas, como Tiffany’s, Dior, Chanel e Balenciaga, se mistura com a riqueza dos detalhes tradicionais de um templo milenar: muito ouro, telhados magníficos e os leões, que guardam os seus grandes portões. Mesmo o Natal não sendo uma data importante para os chineses, e o réveillon ser apenas em fevereiro (fiquei lá entre 14/12 e 03/01), as ruas estavam enfeitadas pelas luzes natalinas, por pinheiros, bolas imensas e bonecos de neve artificial, afinal o espírito natalino e o capitalismo (mesmo em meio ao comunismo) andam de mãos dadas até do outro lado do mundo.




Engana-se quem pensa que a China é um camelô gigante e infinito, muito pelo contrário, você pode até ir pensando em voltar com malas cheias, mas apenas com souvenirs e invenções tecnológicas baratas: lá é tudo caro, mesmo com o real sendo o dobro do yuan, a moeda local. Apenas no taobao.com (tipo o Alliexpress) você vai encontrar pechinchas (e também muitas imitações).

E se alguns hábitos chineses podem ser considerados bastante deselegantes por nós, mas as mulheres de Shanghai são bem elegantes em se tratando de roupas, algumas bem ao estilo oriental, e mesmo sendo muito magras, elas adoram modelitos muitos números maiores, como se tivessem pego emprestados os trench coats e as pantacourts. Agora talvez a coisa melhor e mais surpreendente em se tratando de moda chinesa: você pode ser livre para sair no inverno com o seu pijama estampado e quentinho, acompanhado de suas pantufas, e vai estar super na moda.

A segurança e o caos

Dizem que a China é um dos países mais seguros do mundo (e é!), nada de assaltos e nem preocupação em andar pelas ruas à noite (e desconfio que seja porque lá tem tanta, mas tanta gente, que a cidade nunca está vazia). Porém, registro meu alerta para o único perigo de sofrer um acidente por lá: ser atropelado. O trânsito é simplesmente caótico; às vezes, você não sabe se fica esperando uma brecha para atravessar ou senta na calçada e chora.

A dica de uma amiga taiwanesa que me recebeu na cidade foi seguir os locais, ou seja, se eles atravessarem, vá atrás; se não, fique parado onde está. As motos e bicicletas (elétricas e normais) não seguem leis e não costumam parar nunca para os pedestres, e sinal de trânsito, para eles, não existe. Os carros até respeitam o semáforo, mas podem fazer conversões onde bem entenderem, e virar nos cruzamentos quando o sinal de pedestres está aberto. Resumo: é quase impossível cruzar avenidas movimentadas se não tiver um guarda tentando controlar tudo. Bastante cuidado!




Aqui cabe falar também sobre os banheiros públicos, que não têm necessariamente a ver com segurança, mas são um serviço de utilidade pública na cidade por estarem espalhados pelos quatro cantos. Lembre-se que lá os vasos são tipo fossas, como retângulos no chão, e você terá que se agachar para fazer suas necessidades.

Segundo os japoneses, criadores desse sistema, essa é a maneira mais correta de ir ao banheiro, além de ser a mais higiênica por você não precisar encostar em nada. Mas, atenção aqui: não esqueça de colocar na mochila seu papel higiênico ou lenços umedecidos.


Comidas pra que te quero!

Esse é um assunto, ao mesmo tempo, delicioso e picante, literalmente. Como estava um frio glacial, as comidas estavam ainda mais apimentadas (pra esquentar o corpo), mas me disseram que até no verão, pelo clima muito quente que desestimula a fome, a pimenta é muito usada para regular a temperatura e aguçar o apetite. Eu até curto uma pimentinha, mas um dia meu estômago decidiu reclamar, e aqui lembro outra dica muito importante: leve TODOS os remédios que imaginar que possa precisar, como para dores, azia, gases, febre, etc. Na China, as farmácias são raras e em muitas delas, assim como na maioria dos lugares, as pessoas não vão entender inglês e você provavelmente não vai encontrar um comprimido milagroso (por exemplo, eu precisei comprar algo mais simples, acetona, e custei a achar).

Ao chegar nos restaurantes, você vai receber um copo com água fervendo: os chineses bebem copos e copos de água nessa temperatura por dia porque faz bem para o estômago, assim como tudo mais que eles comem sempre tem um benefício para uma vida mais saudável. Os vegetais cozidos são a grande estrela do hot pot, como a tradução já revela, é uma panela quente tipo recheau que vem à mesa com uma água temperada para que você jogue nela todos os vegetais e carnes que quiser (eles amam cogumelos e tudo que for verdinho. Atenção aos vegetarianos: carne de porco é muito comum, então fique atento.

Frutas estão por toda a cidade e perto da minha casa (um quarto alugado no AirBnb, que é uma ótima opção pela comodidade e pelo preço), os sacolões ficavam abertos até quase de madrugada. Assim como os americanos, os chineses amam café e as franquias do Starbucks bombam por lá em toda esquina, mas os chás continuam sendo a bebida preferida principalmente junto com o ‘soy milk’ e com qualquer coisa líquida ou sólida feita de feijão.


Passeio verde e outros destinos

Shanghai tem muitos parques e ruas arborizadas, mesmo no inverno, além das praças imensas com lagos que abrigam artistas tocando músicas típicas e idosos fazendo yoga e outras artes marciais. O Century Park, o Yuyuan Garden e a People’s Square são ótimos exemplos de um respiro em meio ao caos convidativo da cidade. Já falei sobre os templos, mas vou repetir: você os encontra em lugares inusitados, e mesmo as construções de casas e prédios antigos se confundem com eles por seus telhados característicos. Em meio aos templos tradicionais, você vai visualizar os também tradicionais varais de roupas pendurados no exterior das janelas e portas, e em alguns locais vai se deparar com varais que mais se parecem pontos de ônibus, como se fosse araras gigantes no meio da calçada.









Qibao, especificamente, é um lugar interessante para se visitar. Foi nesse antigo vilarejo (hoje um centro comercial com milhões de becos com lojas e comidas típicas) que nasceu a cidade de Shanghai e é muito interessante ver como a vida se movimenta atualmente por lá. E mais uma vez indo da tradição para a modernidade em outro lugar que vale a visita, o Bund. Vemos nos filmes, mas não imaginamos a grandeza da vista e a maravilha da paisagem de 1.6 km que mistura o rio Huangpu e os prédios do distrito de Pudong com a torre chamada de ‘pérola do Oriente’, e do outro lado com os prédios de arquitetura gótica que abrigam hotéis, bancos e consulados.


Explosão de arte em cores

Sim, em Shanghai tem arte, e arte de qualidade. O M50 District é o destino certo se você procura por arte contemporânea e criatividade em galerias, exposições e em muros extensos repletos de grafites (inclusive, uma parte desses desenhos foram inspirados no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, de acordo com a Time Out Magazine). São dezenas de espaços com obras de arte, cafés cheios de estilo, lojas hype e muito chinês estiloso pelas ruas. Saindo do M50, você pode ir pra Duolun Street e descobrir, pelas ruelas do local, alguns sebos com livros raros e antiquários cheios de objetos curiosos da vida oriental.




Um pulo em Hangzhou

Hangzhou é uma das sete capitais antigas da China, que fica a menos de 2 horas de trem de Shanghai, e é perfeita para uma caminhada ao ar livre ao redor do West Lake, rodeado também de belezas naturais e de lugares históricos, taoístas e budistas, como o Leifeng Pagoda, torre famosa pelos detalhes culturais que carrega consigo, como a lenda da Lady White Snake, e o Lingyin Temple que abriga diversas estátuas de Budhas.


Mergulho no ar (poluído) de Beijing

O título pode não ser muito atrativo, mas essa é a triste realidade de Beijing (Pequim, na nossa tradução), e a sensação de estar na capital com a pior qualidade do ar do mundo (talvez, de todo o universo!) é bastante assustadora. Do aeroporto você já tem que sair devidamente trajado com sua máscara para tentar driblar essa calamidade pública e mergulhar na névoa que encobre a cidade e as pessoas. A cidade é bonita e moderna, mas tudo fica um pouco difícil de enxergar com a nuvem de poluição que paira em cima dela (há quem diga que, nos últimos dois anos, não viu a lua por lá).

Deixando o ar de lado, o Temple of Heaven é uma grande descoberta, e você vai se sentir em um filme chinês tamanha é a beleza do lugar, assim como na Cidade Proibida, tirando a multidão que vai encontrar nos dois endereços. Indo mais uma vez do antigo pra modernidade, a 798 Art Zone é uma região incrível que reúne arte em museus, galerias, galpões e cafés pelas ruas (bem parecido com o M50, que citei antes), e vale muito à pena a visita.



Pegando um trem em Beijing, em 2 horas você chega à Badaling para entrar em uma das construções mais impressionantes em que já estive: a famosa Muralha da China (ou The Great Wall) para subir os milhares de degraus e escalar suas rampas para apreciar alguns poucos dos seus infinitos 21.196 km de extensão, em uma beleza inexplicável que honra sua posição entre os patrimônios da humanidade.





A China é um daqueles lugares em que muita gente nunca imaginou estar (assim como eu), mas que vale cada centavo de yuan gasto, e pra arrumar as malas e partir pro outro lado do mundo, é só tirar o visto chinês, garimpar uma passagem barata e mergulhar nessa que é uma cultura milenar e impressionante.

Pra terminar, e pra agradecer cada instante vivido por lá, só posso dizer xié xie.


*Matéria publicada no Modefica <3






Um comentário:

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